El País: Até o primeiro turno das eleições, restam muitos golpes baixos

 

Escrito por A. Jiménez Barca para o periódico El Pais e traduzido por Luiz Roberto Mendes Gonçalves para o portal UOL.

Marina Silva, candidata do Partido Socialista Brasileiro (PSB), que surgiu na campanha eleitoral como um furacão, conseguindo a vitória em todas as pesquisas e ocupando páginas dos jornais, começa a mostrar o peso de uma campanha longa e dura. Desde sua proclamação após a morte, em um acidente aéreo, do candidato socialista Eduardo Campos, Silva, então candidata a vice-presidente, tornou-se a favorita dos eleitores e o inimigo a vencer dos outros dois aspirantes.

E isso se vê. Na última pesquisa, sua principal adversária, a presidente Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), volta a superá-la. Enquanto isso, sucedem-se os golpes baixos e as viradas espetaculares em uma campanha eleitoral que será decidida, segundo os especialistas em estudos de opinião, por uma margem muito pequena no segundo turno, em 26 de outubro, entre duas mulheres de origens e personalidades diferentes, envolvidas em um duelo fascinante.

A equipe de Rousseff não hesitou em apelar a certo voto do medo. Lembrando que Marina Silva quer dar mais autonomia ao Banco Central do Brasil (coisa a que o PT, mais intervencionista em tudo, se opõe), a atual presidente começou a deslizar em seus discursos frases alegando que a medida acarretaria em prejuízos para os mais pobres. O pior, na opinião dos defensores de Marina, veio em um dos numerosos anúncios e publicidades que os partidos mais poderosos veiculam na televisão. Em um do PT, aparece um grupo de homens engravatados em uma reunião de empresa enquanto um narrador explica que deixar o controle dos bancos para os banqueiros terá consequências funestas. Na cena seguinte, uma família de quatro membros se prepara para jantar quando vê que, como por magia, a comida evapora dos pratos. A mensagem, nada subliminar, é clara. E os especialistas da campanha de Rousseff sabiam a quem dirigi-la: aos eleitores que as duas candidatas disputam, já que, embora seja verdade que Rousseff conta com mais apoio entre os mais pobres, sobretudo nas regiões rurais do norte e nordeste do Brasil, Marina Silva tem mais aceitação entre a faixa superior, a chamada classe C, nova classe média mais urbana e chave nesta eleição.

Marina não demorou para reagir ao ataque. Acusou Dilma de entregar a arma que o então governante Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) havia utilizado 12 anos atrás contra Lula e o PT (sem êxito): incitar o medo, instigar o eleitorado mais vulnerável. Em um comício emocionante no Estado do Ceará (nordeste), a candidata, que sempre exala certo ar espiritual indecifrável, às vezes quase messiânico (o que alguns atribuem a sua religiosidade, já que pertencia à Igreja Evangélica, muito poderosa no Brasil), explicou que não se deixaria levar e replicaria as críticas de Rousseff "com as mesmas armas". E depois acrescentou, para tranquilizar os rumores de que iria despojar os mais pobres de um benefício social muito difundido no país, o Bolsa Família (subvenção aos muito pobres, que oscila entre R$ 70 e R$ 160). "Fiquem tranquilos. Não vou retirar o Bolsa Família, e sabem por quê? Porque eu sei o que é passar fome".

Depois, a candidata lembrou com ênfase sua infância no remoto Estado do Acre, onde trabalhava como coletora de borracha junto de seus sete irmãos, sem saber ler nem escrever, e dividia "um ovo, um pouco de farinha, sal e uns pedaços de cebola". Depois contou que muitas vezes seus pais ficavam sem comer para alimentar com esse pouco seus filhos. "Quem vive essa experiência jamais acabará com o Bolsa Família. Não é um discurso. É uma vida", concluiu, em uma frase muito sua, que a situa em um terreno intocável, além da política.

Por isso, Rousseff, muito mais terrena, tenta baixá-la das alturas espirituais para a arena de todos os dias. Ao saber que Marina Silva se queixou até as lágrimas de que a atacam por todos os lados, afirmou: "Não há vítimas na Presidência da República. Quem pretende chegar lá não pode ser vítima. Há muitas pressões para suportar. Se uma pessoa se sente vítima, é melhor não se candidatar."

Aécio Neves, do mais conservador PSDB, que há algumas semanas aparecia bem distante das outras candidatas, de seu terceiro lugar nas pesquisas também começou a bombardear Marina Silva, acusando-a sobretudo de renegar seu passado como membro do PT, partido do qual fez parte durante mais de 25 anos.

Por enquanto, a estratégia de demolição parece dar resultados. Rousseff, na citada pesquisa, publicada na sexta-feira (19) pela "Folha de S.Paulo", distancia-se timidamente de Silva, com 37% de intenções de voto. Esta começa a perder posições, com 30%. Há 15 dias, estavam quase empatadas. Neves, afundado naquela data, parece ressuscitar, com 17%. Em um hipotético segundo turno, com Neves eliminado, as duas mulheres apresentam, por enquanto, um empate técnico. Mas tudo é provisório. O primeiro turno será disputado em 5 de outubro, mas até então restam muitos dias e muitos golpes baixos.

Jazida de petróleo entra na campanha

Dilma usa descoberta do petróleo contra sua rival ecologista

O Brasil se situa ao lado de uma imensa lagoa subterrânea de petróleo. Localizada diante de sua costa sudeste, entre os estados de Rio Grande do Sul e Espírito Santo, e descoberta em meados da década passada, a jazida se encontra sob o mar a 2.000 metros de profundidade no leito oceânico. Chama-se abstrusamente pré-sal e os cálculos afirmam que esconde 80 bilhões de barris de petróleo: um tesouro que pode fazer o Brasil saltar do 13º lugar entre os produtores de petróleo para 6º nos próximos 20 anos.

A companhia encarregada de administrar tudo isso é a empresa pública Petrobras, a maior empresa do país, lastreada nos últimos tempos por uma série de escândalos de corrupção. A declaração judicial, com mais de delação pura e simples que outra coisa, do ex-diretor da companhia Paulo Roberto Costa,  acusado, por sua vez, de lavar dinheiro, na qual acusou várias dezenas de políticos, incluindo ministros e deputados federais, de receber subornos, sacudiu a já convulsa campanha eleitoral. Mas o petróleo já era por si um protagonista.

De fato, em um dos debates televisivos entre os principais candidatos, a atual presidente, Dilma Rousseff, perguntou na primeira oportunidade a sua principal rival, Marina: "E você, o que pensa fazer com o pré-sal?"

A pergunta era pertinente. Silva, ex-ministra do Meio Ambiente durante um dos governos de Lula (antes de abandonar o PT), é uma ambientalista de renome internacional, e sua posição não muito favorável às energias fósseis é conhecida. Em um encontro realizado dias antes com produtores de etanol, Silva havia chegado a afirmar: "Temos que sair da era do petróleo". No debate com Rousseff, Silva escolheu uma resposta longa e um tanto ambígua. Afirmou que não dava as costas ao petróleo, que era preciso explorar esses recursos com cuidado, mas acrescentou em seguida: "O Brasil tem um grande potencial de geração de biomassas, energia eólica e solar, e são energias que o atual governo não levou muito em conta."

No programa de Silva, só há uma frase que se refere às imensas reservas petrolíferas do subsolo brasileiro: "Destinar a verbas de educação os lucros do petróleo em áreas já concedidas do pré-sal".

A frase faz referência a uma lei aprovada pelo Congresso no último verão, idealizada para aplacar os protestos de rua que inflamaram o país pedindo mais e melhores serviços de saúde e educação. Em virtude dessa lei, os lucros que vão para o Estado das concessões para empresas privadas de extração de petróleo dessas reservas serão destinados a serviços de saúde (25%) e de educação (75%).

À aparente suavidade de Silva, Rousseff opõe uma contundência completa na hora de mostrar sua posição favorável à exploração intensa e rápida do mar de petróleo. Também se mostra partidário o conservador Aécio Neves.

Outro foco de conflito surge do fato de que tanto a candidatura de Silva como a de Neves se inclinam a reduzir o poder da Petrobras, o que poderia ser interpretado como uma possível privatização de parte da empresa. Na campanha, Neves negou isso, mas afirma que é preciso redesenhar a empresa e "tirá-la das mãos de um partido", referindo-se ao PT. Rousseff, muito mais intervencionista que seus dois adversários, sempre se negou a mudar a gestão da empresa.

Contudo, o mais entusiasta na hora de aludir ou descrever as reservas de petróleo é o próprio Lula, sob cujo governo elas foram descobertas. Em um ato recente de campanha em apoio a Rousseff, o carismático ex-presidente brasileiro visitou uma refinaria da Petrobras e, depois de vestir o uniforme laranja dos empregados, afirmou, lançando uma mensagem a Marina Silva, sem citá-la: "Quem é contra o pré-sal é contra o futuro. O petróleo é o passaporte para o futuro deste país."

Contando com uma média de 457.000 exemplares diários, o El País é um diário de grande circulação, com a maior tiragem da Espanha.