O direito de criar

Nenhuma língua é estática. Palavras nascem e morrem com uma facilidade muito maior do que supõe "nossa vã filosofia". Algumas, é bem verdade, criam polêmica quando surgem, mas depois acabam sendo aceitas. Foi o que ocorreu com "imexível", palavra usada por um ministro do governo Collor. Na época, foi motivo de gozação, uma vez que não estava registrada nos dicionários. Hoje, podemos encontrá-la no Houaiss, o melhor dicionário do mercado.

Na poesia, os artistas das palavras têm o direito de criar. Para isso, bastam caneta, papel e criatividade (se bem que, nestes tempos de computador, a caneta e o papel ficaram meio esquecidos). Drummond, por exemplo, em seu poema "Aula de Português", classificou as figuras de gramática como "esquipáticas", aglutinando "esquisitas" e "antipáticas". A palavra, claro, só existe neste poema de Drummond, mas cumpriu seu papel semântico.

O poeta e médico Janduhy Finizola tem um livro de poesias intitulado "Sementes". Uma obra-prima da reflexão e da maturidade, construída com uma inocência quase pueril. Um de seus textos recebeu o título "Purescência". Sim, assim mesmo: "Purescência". "Na minha frente, você./ Desconhecida, imatura, humana,/ Irreverente, irrequieta, impulsiva,/ Quente, jovem e morena. // Na minha frente, a vida,/ Complexa, imprevisível, plena,/ Trepidante, convulsa, fogosa,/ Ilimitada, infinita, toda."

Finizola preferiu fundir o adjetivo ao substantivo. Não quis "Pura essência"; preferiu "Purescência", que funciona com valor de pureza (ainda que com um sufixo diferente) e cuja sonoridade lembra "Pura essência", talvez a essência de sua própria obra.

Enfim, os poetas têm o direito de criar palavras. Faz parte do jogo de sedução das palavras, das formas amorfas que elas podem ter. E Janduhy Finizola faz uso dessa possibilidade em "Sementes". E dessas sementes saem bons frutos.

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