1% tem. 99% têm que.

Millôr Fernandes, um dos grandes escritores brasileiros, escreveu certa vez que "No Brasil apenas 1% tem. Os restantes 99% têm que". Parece sem sentido? Não para bons leitores.

Não são poucos os alunos que se queixam de interpretação de texto. Para eles, parece mais simples decorar um monte de regras gramaticais e sair por aí dizendo que sabem português. Ora, qualquer um de nós já sabe português desde a mais tenra idade. Comunicamo-nos usando a língua portuguesa! O saber português é muito mais que o saber regras gramaticais.

Millôr Fernandes quebra todas as expectativas gramaticais no texto supracitado. Como autor, ele sabe para quem está escrevendo. E deve imaginar que seus leitores seriam capazes de perceber o tom irônico do "apenas 1% tem". Um mau leitor - aquele que efetivamente não é bom em português - fica se perguntando: "- tem o quê?" Mas é justamente na omissão do complemento verbal que reside toda a carga irônica do texto. Escrever que "No Brasil apenas 1% tem real poder socioeconômico" tira da frase todo o efeito que o autor quis imprimir.

É preciso observar também a oposição entre "1% tem" e "99% têm que". Mais uma vez, é a omissão que confere ao texto toda a carga semântica. 99% têm que batalhar, têm que estudar, têm que se virar para vencer.

É preciso que as aulas de gramática se voltem para essas nuances da linguagem. Os alunos precisam aprender as várias possibilidades semânticas da língua, sem se preocuparem com tantas definições gramaticais. De nada serve perder tempo aprendendo que "verbo é a palavra que indica ação, estado ou fenômeno da natureza" porque verbo não é isso!!! De nada adianta ficar preocupado com a classificação morfológica do "que" em "99% têm que batalhar" porque isso não ajuda em nada o desenvolvimento linguístico.

Fica, pois, mais uma vez o convite à reflexão e à leitura. Vamos incentivar nossos jovens a ler e a descobrir as muitas possibilidades que a língua portuguesa nos oferece. Sem livros, revistas e jornais, teremos apenas robozinhos que repetem regras. E isso a Microsoft já produziu.

Até a próxima