Quando o artigo resolve

Quando vamos redigir um texto, uma das virtudes é a simplicidade. Foi-se o tempo em que o bom texto era aquele cujo entendimento só era possível consultando, a cada cinco palavras, o dicionário. Simplicidade é um bom negócio.

Entretanto, a imprensa costuma entender mal isso. Confunde o que é simples com o que é superficial, causando no leitor, muitas vezes, ambiguidades. Ambiguidade é o mesmo que duplo sentido. Nos textos publicitários, costuma ser virtude. No texto jornalístico, vira defeito.

Certa vez, um grande jornal de Pernambuco trouxe uma matéria cujo título era: "Preso acusado de traficar cocaína". E então, o que entendeu o leitor?

Há duas possibilidades de interpretar o sofrível título. A primeira seria a de que um detento estava sendo acusado de tráfico. A segunda, a de que um indivíduo foi preso sob a acusação de tráfico de cocaína. Em outras palavras, é possível entender que o indivíduo traficava dentro do presídio (nesse caso, a palavra "preso" funciona como substantivo) ou que alguém foi preso porque traficava (nesse caso, "preso" é particípio irregular de "prender" e "acusado" é o substantivo). Apenas a leitura do texto esclareceria que a segunda opção era a verdadeira. Entretanto, a forma como o título aparecia dava margem a outra interpretação.

Nesse caso, a simplicidade foi o problema. Ao optar pelo particípio "preso" sem o verbo "ser" no início do período, o jornalista deu ao leitor a possibilidade de entender a primeira palavra como substantivo, uma vez que, na língua portuguesa, costumamos colocar substantivos antes de adjetivos. Resultado: um título ambíguo, que não esclarecia o que ocorrera e - pior - possibilitava uma interpretação errada da notícia. O problema estaria resolvido com a manchete: "Acusado de traficar cocaína é preso". Simples, mas eficiente.

Noutra vez, VANGUARDA deu um excelente exemplo do cuidado com a linguagem. Logo na primeira página, o semanário noticiou: "Preso O acusado de assassinar ator". O artigo "o" antes de "acusado" evitou a ambiguidade. Fica claro que "O" acusado foi preso. Caso a frase estivesse sem o artigo ("Preso acusado de assassinar ator"), seria possível interpretar que um detento ("preso") estava sendo acusado de matar ator. Mudaria tudo.