Como as elites se perpetuam

O escândalo da Petrobras desnuda a forma de manutenção de poder de grandes grupos econômicos, à custa da corrupção pública. O cerne do esquema é o acesso a contratos estatais. Não é um modelo clássico de desvio de verbas. Envolvia conluio entre empreiteiras, partilha dos grandes orçamentos públicos e propinas para agentes governamentais, com vistas a assegurar o controle político. Para pagar as generosas comissões, os contratos eram superfaturados.

O interesse público tinha dois prejuízos. Mais imediato, o valor muito mais alto das obras. Parte do qual foi parar, segundo as denúncias, no caixa dos partidos. Talvez o maior prejuízo, o direcionamento das obras públicas para um clube fechado, fechadíssimo de grandes construtoras. Um cartel.

O centro do escândalo é, portanto, o controle das verbas para grandes obras por um restrito grupo de empreiteiras. Poder econômico que depende do poder político. Que, por sua vez, tira proveito do interesse das empresas para se perpetuar como governo. Uma mão suja a outra.

As obras, embora superfaturadas, são feitas. É mais lucrativo e mais sofisticado que apenas desviar verbas. As licitações são realizadas, mas manipuladas. Aliás, tem se mostrado mais fácil e comum direcionamento com a licitação ocorrendo que por meio de dispensa ou inexigibilidade. Com os conluios, a concorrência real pode ser burlada até à margem do aparato governamental. Não são nada raros os exemplos, a propósito.

ESQUEMA DE PODER, DINHEIRO E CONTROLE
As propinas enriquecem agentes públicos, abastecem partidos e os ajudam a permanecer no poder. É quase impossível uma empreiteira ascender no mercado nacional e se estruturar por fora desses esquemas. Sem crescer, formar capital de giro e adquirir porte considerável, é inviável para uma construtora tocar uma grande obra, que envolva até bilhões de reais e anos e anos de trabalhos, sujeitos a imprevistos, suspensões de pagamentos, questionamentos em tribunais de contas, pendências ambientais e por aí vai. O clube é restrito e, sem recorrer aos mesmos métodos, é quase impossível romper o bloqueio e chegar até ele.

Não é fácil desvendar esse tipo de esquema, pois as obras são realizadas. Comprovar o superfaturamento é também complicado. As delações ajudaram a encontrar o fio da meada. As confissões e revelações feitas pelos diretores das empresas permitem perceber que não é algo isolado na Petrobras. Elas estão no Governo Federal, mas se reproduzem em menor escala em todas as esferas. Também se formam subgrupos de empreiteiras locais, que muitas vezes reproduzem esquemas parecidos, embora menos requintados.

O que está sendo descoberto é algo que se comenta há muito tempo, mas nunca foi desvendado nessa dimensão e com tal riqueza de detalhes. Compreender os meandros desse escândalo é ponto de inflexão na história do combate à corrupção no País. E ajuda a desvendar as engrenagens da construção do poder no Brasil, o político e o econômico.