A política tenta se salvar

O senador Aécio Neves (PSDB) sintetizou o pensamento que passa pelas forças que comandam o Brasil: “É preciso salvar a política”. Por política entenda-se os políticos. Particularmente um grupo de políticos, porque alguns foram lançados aos leões. A cadeia de escândalos está fora de controle, talvez pela primeira vez na história brasileira. Está exposta a parcela de cada partido na construção de um funcionamento corrupto da máquina pública em conluio com a iniciativa privada. Ninguém escapa e esse é o medo deles.

“Todo mundo vai ficar no mesmo bolo e abriremos espaço para um salvador da pátria?”, indagou Aécio.

O escândalo é generalizado. A Lava Jato foi ferramenta eficaz para tirar o PT do governo. Ocorre que PMDB e PP, bem como tantos outros, estavam juntos no esgoto. Agora, querem diferenciação. Qualquer distinção de tratamento entre crimes equivalentes é espúria. Um novo crime.

A conversa de Aécio lembra muito o que Romero Jucá (PMDB-RR) disse nos diálogos gravados com Sergio Machado. “Delimitava onde está, pronto”. É o que se pretende com a Lava Jato. Já ajudou a trocar o governo. É melhor parar por aí. Porque, pelo que disse Sergio Machado no mesmo diálogo, o “primeiro a ser comido vai ser o Aécio”.

O senador tucano tem razão no receio sobre saídas fora da política. Mundo afora, tem havido busca a alternativas que se apresentam como apolíticas ou antipolíticas. Donald Trump nos Estados Unidos e João Dória em São Paulo são exemplos. A negação política é sempre um risco. Resvala em personalismo de salvadores da pátria a que Aécio faz alusão. O resultado costuma ser autoritarismo.

É preciso, sim, que o meio político construa alternativas. Isso não significa preservar os políticos que se envolveram em gravíssimos casos de corrupção e que se aproveitaram da máquina pública. O sistema partidário que se consolidou na eleição de 1994 está destruído e nada foi colocado no lugar. Renovação sob novas bases é imprescindível. Mas, deixar de punir quem visivelmente tem culpa apenas iria prolongar a crise. Estaria longe de ser uma saída.


SALVADOR DA PÁTRIA

Aécio fala do receio de um salvador da pátria em função do desmoronamento de quase todas as principais opções para a disputa presidencial de 2018. O nome mais à mão para essa função é Jair Bolsonaro (PSC-RJ). Ele cresce com esse descrédito das forças tradicionais, embora estivesse um ano atrás filiado ao PP, onde permaneceu por 11 anos. Trata-se do partido com mais políticos investigados na Lava Jato.

O fato é que o ambiente é mesmo propício para o surgimento de novidades. Como todas as forças consolidadas estão enfraquecidas, realmente a viabilização de um candidato fora do eixo PT-PSDB-PMDB dependeria da força pessoal de uma personalidade. Isso sempre é um risco. O ambiente é mesmo propício a aventureiros.

Porém, isso não é motivo para preservar quem tem culpa. Usar isso como argumento para frear as investigações é desfaçatez pura e simples.


CALDO

O presidente Michel Temer (PMDB) disse: “A economia está numa onda excepcional”.

O Brasil teve recessão de -0,3% no segundo trimestre do ano passado, de -0,7% no terceiro trimestre e de -0,9% no quarto trimestre. Os números são em comparação com o mesmo período do ano anterior.


Imagine se a onda fosse ruim.

ÉRICO FIRMO Jornal o povo