Nossa Língua: Menelau Júnior

O professor Menelau Júnior é formado em Letras e possui especialização em Língua Portuguesa. É também escritor, apresentador de TV e dá dicas de português também em uma emissora de rádio e de tv de Caruaru. Leciona desde 1991 e é colunista do jornal Vanguarda e da TV Criativa.

Quem viu passarinho verde? - por Menelau Júnior

Quem, como eu, já passou dos 40 certamente usou alguma vez na vida a expressão "Ele anda vendo passarinho verde". A frase é empregada quando alguém está com cara de bobo, geralmente por motivos relacionados ao coração. Se o rapaz estressado aparece tranquilinho de uma hora para outra, é porque viu "passarinho verde". Se a moça passa o dia sorrindo, é porque também viu "passarinho verde". Mas de onde vem essa curiosa expressão?

As cores sempre foram usadas de forma metafórica para expressar sentimentos e julgamentos. Michel Temer, por exemplo, não tem como esconder aquele "sorriso amarelo" de quem se esforça para vender uma imagem simpática; Fernando Collor, quando presidente, chegou a dizer que tinha "aquilo roxo"; o menino malcriado cujo comportamento destoa dos demais membros da família é a "ovelha negra" da casa.

No caso do verde, sabemos que essa cor representa a esperança. Quando perguntamos se alguém viu "passarinho verde", sempre esperamos uma resposta boa. Mas por que um passarinho verde?

Antigamente - e aí já não foi mais no meu tempo - , as moças usavam periquitos como pombo-correio. Os bichinhos levavam bilhetes para os namorados e também traziam notícias deles. Os periquitos eram, portanto, mensageiros de coisas boas, pois as moças sempre ficavam felizes ao receber notícias de seus amados. Foi daí que surgiu a expressão "ver passarinho verde" no sentido de que alguma coisa boa aconteceu. Como não lembrar também os realejos, aquelas caixinhas de música em que, ao final de cada execução, um periquito tirava um cartãozinho com a sorte de cada um.

Existe ainda uma lenda de que, no século XIX, as moças avisavam aos namorados o envio de cartas de amor colocando um periquito na grade das janelas. Hoje, na era do whatsapp, não há mais janelas nem periquitos.

A palavra "periquito" é, na verdade, um diminutivo: vem de "perico", espécie de papagaio. Como se perdeu essa noção etimológica, passamos a atribuir mais um sufixo à palavra, chamando o pequeno pássaro de "periquitinho".

Nesses tempos de fiscalização rígida do Ibama, ninguém mais pode sair por aí vendo "passarinho verde". Ficou a expressão para quem, como eu, tem mais de quarenta.

Até a próxima.