Nossa Língua: Menelau Júnior

O professor Menelau Júnior é formado em Letras e possui especialização em Língua Portuguesa. É também escritor, apresentador de TV e dá dicas de português também em uma emissora de rádio e de tv de Caruaru. Leciona desde 1991 e é colunista do jornal Vanguarda e da TV Criativa.

Hitler, Durant e Reagan estavam certos - por Menelau Júnior

 

Adolf Hitler era um homem inteligente. Seu antissemitismo cruel já foi abordado por vários historiadores e configura uma das mais terríveis páginas de nossos tempos recentes. Mas é impossível negar que um homem que arrasta ideologicamente multidões não seja inteligente. Hitler sabia enganar. É do ditador nazista a frase "Quanto maior a mentira, maior a chance de todos acreditarem nela". Nisso, Hitler estava certo.

Tenho visto nos jornais vários casos de prefeitos e vereadores cassados por seus crimes e mentiras. Outra dezena está sendo processada sob ameaça de cassação. Por isso, nosso comentário da semana é sobre o verbo "cassar".

Em português, palavras que possuem a grafia ou a sonoridade idêntica recebem o nome de "homônimas". Quando a grafia é diferente mas a sonoridade é igual, estamos diante de "homófonas heterográficas". É o que ocorre com o par "caçar/cassar".

Caçar (com Ç) é o ato de prender ou abater. Há quem goste de caçar pássaros, jacarés, tatus. Cassar (com SS) é anular os direitos políticos de alguém. O deputado que é flagrado em atos de corrupção pode ser cassado. No caso, quem corre o risco de ser cassado (com SS) pode ter os direitos políticos anulados. Não é fácil.

O Filósofo e Historiador americano Will Durant, autor de "História das civilizações", afirma que "a máquina política triunfa porque é uma minoria unida contra uma maioria dividida". É assim que a corrupção toma conta do país e vemos poucas cassações. Durant estava certo.

E já que um assunto puxa outro, é bom lembrar que a palavra "corrupção" apresenta uma forma variante: "corrução". O mesmo se aplica a "corrupto", que pode ser chamado de "corruto". Aliás, em vez de se dar a certos políticos as chaves da cidade, seria melhor trocar as fechaduras...

Isso me lembra o caso do ex-presidente Fernando Collor, que, embora tenha sido inocentado pelo STF, foi submetido a um impeachment. Essa palavra, que é de origem inglesa, pode ser substituída por "impedimento" ou mesmo "cassação". Um impeachment é, segundo o dicionário Houaiss, um "processo político-criminal instaurado por denúncia no Congresso para apurar a responsabilidade, por grave delito ou má conduta no exercício de suas funções, do presidente da República, ministros do Supremo Tribunal ou de qualquer outro funcionário de alta categoria".

Até lamento que essas palavras façam parte do dia a dia do brasileiro. É bem verdade que evoluímos consideravelmente no quesito fiscalização do poder público, mas não nos iludamos: ainda estamos imersos num lamaçal de favores, desvios de verbas e abusos de poder. Se houvesse mais justiça e menos roubalheira (procurei outra palavra, mas não achei), talvez a coluna desta semana fosse outra. O ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan disse certa vez que a política é a segunda profissão mais antiga do mundo, mas com muitas semelhanças com a primeira...